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Para embalar a velhice

Nunca fui muito conivente com aquele discurso batido, verdadeiro senso-comum desprovido de comprovação científica, de que “as coisas no meu tempo eram melhores”. Você já escutou seus avós aplicarem o jargão em relação a quase tudo: à maneira de brincar, à moda, aos hábitos, aos costumes, às diversões etc, etc, etc. Até o clima, nos antigamentes, era mais confiável e convivível. No tempo deles, tudo era melhor, mais genuíno, mais puro e patatis e patatás. Você certamente já ouviu seus pais dizerem coisas semelhantes em uma ou outra oportunidade. Mas o assustador mesmo é quando, à medida em que vai envelhecendo e mobiliando o cérebro com recordações e nostalgias, você se surpreende repetindo o argumento aos representantes das novas gerações que o cercam.

Até aí tudo normal, faz parte do processo de envelhecer o enaltecimento das rosáceas lembranças da infância, dos anos de formação, de tudo o que de bom nós vivenciamos. E é natural que nos sintamos desconfortáveis ou deslocados em meio às novas formas de ser gente nos dias modernos, já que nenhuma geração vive experiências idênticas. Os cenários vão mudando, o mundo é outro, e é óbvio que as crianças de hoje vão lembrar da infância delas com as mesmas doses de carinhosa nostalgia com as quais recordamos da nossa. Se “no nosso tempo é que era bom”, pode ter certeza de que o tempo delas está sendo para elas tão bom quanto, pois estão vivendo a única infância que lhes cabe vivenciar.

Apenas uma coisa me preocupa quando se trata de diferenças entre as gerações. Não sei se é também uma implicância injustificada de cidadão maduro rumando à velhice, mas ando detectando a existência de uma diferença crucial a marcar o modo de ser gente entre a minha geração e as gerações dos que me precederam de um lado, e as gerações mais novas de outro. Parece-me que o conceito de empatia está se perdendo entre essas novas levas de gente que vão povoando nosso mundo. Empatia é a capacidade humana que temos de nos sintonizar com os sentimentos dos outros, de nos colocarmos no lugar do outro. Para sermos capazes disso, no entanto, precisamos antes estar municiados da capacidade de enxergar os outros, de admitir que os outros existem e têm direitos e vontades, e isso também me parece que é outra habilidade humana que está minguando.

Preocupa-me cada vez mais o crescimento do individualismo dessa nova gente. Da postura do “eu primeiro, eu depois e ainda eu também” que vejo no trânsito, nas ruas, nos lares, no trabalho, nos condomínios, nos restaurantes, nos cinemas, enfim, no mundo todo que me cerca. Acredito piamente que no meu tempo não era assim. Mas talvez essa sensação seja falsa, nada mais do que uma rabugentice de pré-velho misturada com nostalgia. Tomara mesmo que não passe disso. 
Marcos Fernando Kirst - jornalista (Crônica publicada no Jornal Pioneiro)